domingo, 21 de maio de 2017

INTRIGA INTERNACIONAL


INTRIGA INTERNACIONAL (1959)

"North by Northwest” é, definitivamente, um filme de perseguição. Alfred Hitchcok afirmou que, depois de se sentir extenuado com a sua anterior realização, um filme complexo como “Vertigo” (1958), queria a seguir algo muito mais leve, alegre, divertido, e aproveitou o clima de guerra fria que se vivia no mundo para realizar esta obra de espionagem que, todavia, tem tudo que pertence a este mestre, do suspense, é certo, mas mestre sobretudo do cinema mundial.
Se não, vejamos. O falso culpado é o tema central, como central é em quase todas as obras de Hitch.  Um executivo nova-iorquino, Roger Thornhill (Cary Grant), cuja profissão é a publicidade, é tomado por um tal "George Kaplan” que uma agência de espionagem norte-americana inventou para desviar as atenções e tentar iludir Phillip Vandamm (James Mason). Roger Thornhill será capturado pelos homens de mão de Vandamm. Mas consegue fugir. E essa fuga vai levá-lo a Chicago e de Chicago até às famosas estátuas dos rostos dos presidentes dos EUA, esculpidas em rocha, no Mount Rushmore. As peripécias são tantas e tão invulgares que só o talento e o humor de Alfred Hitchcock permitiriam que as mesmas adquirissem alguma credibilidade, pelos menos a suficiente para o espectador torcer pelo protagonista durante duas horas, na sala escura de um cinema (ou, agora, mais prosaicamente, na sua sala de estar, frente ao televisor). Mas a verdade é que Hitch conduz esta cavalgada quilométrica com uma elegância, uma inquietação, uma ironia que nos deliciam.
Mas além do falso culpado, Hitch não passa sem uma loura verdadeira, neste caso Eva Marie Saint que, alguns anos antes (1954), fora premiada com o Oscar de Melhor Actriz pelo seu desempenho em “Há Lodo no Cais”. Ela é Eve Kendall, uma misteriosa mulher que o publicitário em fuga encontra a bordo de um comboio, com quem estabelece uma fulminante relação de empatia (ou mesmo de algo mais) e que se manterá muito misteriosa até se perceber quem ela é, ou quem nós pensávamos que era. Mas, no final, numa cena que o próprio Hitch considera como das mais sexualmente explícitas do seu cinema, o casal, a bordo de um novo comboio, penetra (não esqueçam a palavra!) num túnel que tudo indica ter uma leitura simbólica muito embora o Mestre tenha igualmente declarado que este filme tinha muito pouco simbolismo.


Mas tem e muito. Apesar de ser um aparente divertimento, este é um filme carregado de sugestivas interpretações e de um imprescindível "MacGuffin", uma designação inventada por Hitchcock para designar uma falsa pista, aqui um objecto adquirido num leilão de obras de arte e que contém no seu interior microfilmes com fórmulas secretas que serão desviadas pelos espiões. Mas este é afinal um problema lateral à própria intriga de “North by Northwest”. Todas as obsessões e fantasmas de Hitchcock se encontram bem inseridas nesta obra, muito embora se possa considerar um filme menos denso do que o já citado “Vertigo” (mas haveria dezenas de outros títulos deste cineasta que poderiam igualmente ser citados). Acontece que o ar ligeiro deste thriller só o é na aparência, sendo sobretudo de realçar a angustiante situação de “perseguido por engano” do protagonista que, cada vez que procura solucionar o seu caso, se encontra mais envolvido em suspeitas. Há uma altura em que alguém é assassinado à sua frente e, a partir daí, Roger Thornhill passa igualmente a ser perseguido pela polícia, o que torna ainda mais dramática a sua fuga. Depois, além de um culpado ser falso, quase todos à sua volta também são falsos como judas, aparentando ser o que não são, apesar de alguns serem, não serem e voltarem a ser, o que leva à criação de um universo de permanente dúvida. Um universo em que o protagonista não acredita em ninguém, mas em que ninguém também parece, na realidade, acreditar nele (muito embora muitos saibam que ele fala verdade, mas essa verdade pode não interessar a certos interesses). O mundo torna-se um lugar difícil de habitar, e mesmo numa paisagem quase deserta, numa planície imensa, a imprevisibilidade é permanente, como acontece nessa fabulosa sequência em que Roger Thornhill é chamado a uma cilada e um avião de pulverizar insecticida o tenta abater. 
O filme tem uma belíssima partitura musical de um dos grandes compositores para cinema, Bernard Herrmann, uma magnífica fotografia a cores de Robert Burks, e tudo concorre tecnicamente para o sucesso desta obra que se tornou num dos grandes triunfos da carreira de Hitch. De resto, a interpretação é igualmente extraordinária, não só da parte de Cary Grant, um dos actores de estimação do mestre do suspense, mas igualmente por parte de Eva Marie Saint (Eve Kendall), James Mason, Leo G. Carroll, Josephine Hutchinson ou Martin Landau. 


INTRIGA INTERNACIONAL 
Título original: North by Northwest 
Realização: Alfred Hitchcock (EUA, 1959); Argumento: Ernest Lehman; Produção: Herbert Coleman, Alfred Hitchcock; Música: Bernard Herrmann; Fotografia (cor): Robert Burks; Montagem: George Tomasini; Casting: Leonard Murphy; Design de produção: Robert F.  Boyle; Direcção artística: William A. Horning, Merrill Pye; Decoração: Henry Grace, Frank R. McKelvy; Maquilhagem: Sydney Guilaroff, William Tuttle, Peggy Shannon, Stanley Smith; Guarda-roupa: Harry Kress; Direcção de Produção: Ruby Rosenberg; Assistentes de realização: Robert Saunders, Mickey McCardle, Tim Whelan Jr.;  Departamento de arte: Matty Azzarone, Mentor Huebner;  Som: Franklin Milton; Efeitos especiais: A. Arnold Gillespie;  Efeitos visuais: Cliff , Matthew Yuricich; Companhias de produção: Metro-Goldwyn-Mayer (MGM); Intérpretes: Cary Grant (Roger O. Thornhill), Eva Marie Saint (Eve Kendall), James Mason (Phillip Vandamm), Jessie Royce (Clara Thornhill), Leo G. Carroll (o Professor), Josephine Hutchinson (Mrs. Townsend), Philip Ober (Lester Townsend), Martin Landau (Leonard), Adam Williams (Valerian), Edward Platt (Victor Larrabee), Robert Ellenstein (Licht), Les Tremayn, Philip Coolidge, Patrick McVey, Edward Binns, Ken Lynch, Stanley Adams, Andy Albin, Ernest Anderson, Sam Bagley, Baynes Barron, Steve Carruthers, David A. Cox, Walter Coy, Patricia Cutts, Tommy Farrell, Bess Flowers, Sally Fraser, Tom Greenway, Alfred Hitchcock homem a perder o autocarro),  Stuart Holmes, Bobby Johnson, Sid Kane, Kenner G. Kemp, Madge Kennedy, Doreen Lang, Larry Leverett, Frank Marlowe, Nora Marlowe, Maura McGiveney, Henry O'Neill, Murray Pollack,  Maudie Prickett, Ralph Reed Cosmo Sardo, Harvey Stephens, Frank Wilcox, etc. Duração: 135 minutos; Distribuição em Portugal: M.G.M.; Classificação etária: M/ 12 anos; Data de estreia em Portugal: 8 de Março de 1960.


CARY GRANT (1904 - 1986) 
Archibald Alexander Leach, mais conhecido por Cary Grant, nasceu a 18 de Janeiro de 1904, em Horfield, Bristol, Inglaterra, e viria a falecer a 29 de Novembro de 1986, em Davenport, Iowa, EUA, aos 82 anos, vítima de uma hemorragia cerebral. Casado com Virginia Cherrill (1934 - 1935), Barbara Hutton (1942 - 1945), Betsy Drake (1949 - 1962), Dyan Cannon (1965 - 1968) e Barbara Harris (1981 - 1986). Conta-se que a mãe de Archibald, quando este era ainda muito miúdo, o vestia como uma menina, o que terá tido algum efeito perturbador na sua personalidade. O pai, por seu turno, levou-o, aos seis anos, a assistir a um espectáculo de pantomima que ele adorou. O produtor, Robert Lomas, precisando de mais uma criança para o seu show, contratou Archibald, que partiu em tournée para Berlim. Aí, um empresário americano, Jesse Lasky, levou-os, a bordo do Lusitânia, com destino à Broadway. Regressou depois a Bristol, e aos estudos. Aos nove anos, passou a viver apenas com o pai pois a mãe dera entrada num hospício. Aos treze, deixa a escola, falsifica a assinatura do pai, e entra para a companhia do comediante Bob Pender. Por dois anos apresentou-se em diversas cidades da Inglaterra até que, em Julho de 1920, com 16 anos, foi um dos escolhidos por Pender para uma nova tournée, esta de dois anos, pelos Estados Unidos. Archibald não voltaria a Inglaterra. Trabalhou como arrumador de cinema, vendeu gravatas e interpretou números de variedades. Depois viajou para Hollywood, onde a sua elegância e porte chamaram a atenção de Ben Schulberg, da Paramount, onde mudou de nome, passando a "Cary Grant". A estreia no cinema aconteceu em 1932, num musical medíocre, “Esposa Improvisada”, mas rapidamente lhe surgiu uma boa oportunidade, para trabalhar sob as ordens de Josef von Stenberg, ao lado de Marlene Dietrich, em “Vénus Loira”. Mas só em 1935, com “Sylvia Scarlett”, ombreando com Katharine Hepburn, adquiriu o estrelato, onde se manteve até final da vida, sendo considerado um dos maiores comediantes de sempre. Sucederam-se êxitos como “Bringing Up Baby” (1938), “Gunga Din” (1939), “His Girl Friday” (1940), “The Philadelphia Story” (1940), “Suspicion” (1941), “Arsenic and Old Lace” (1944). Em 1933, conheceu o actor Randolph Scott, o qual, segundo se sabia, era amante do milionário Howard Hughes. Mas a atracção entre ambos foi imediata e recíproca, e os dois passaram a ter uma longa e polémica relação homossexual, já que Scott se mudou para o apartamento de Grant. Os estúdios obrigaram-nos a morar em casas separadas e, face às pressões impostas, Grant nunca chegou a assumir publicamente que este teria sido o grande amor da sua vida. No ano seguinte, foi “obrigado” a casar com a actriz Virginia Cherrill, mas o embuste ainda chamou mais a atenção, dado que Cary Grant, pouco depois, tentou o suicídio. Divorciado, voltou a morar com Randolph Scott. Em 1941, durante a II Guerra Mundial, tornou-se cidadão norte-americano, e, a 8 de Julho de 1942, casou-se com a milionária Barbara Hutton, de quem se divorciou três anos mais tarde. As décadas de 40 e 50 foram pródigas em grandes sucessos, como “Notorious” (1946), de Alfred Hitchcock, ao lado de Ingrid Bergman no filme de Alfred Hitchcock, a que se seguiram “The Bishop's Wife” (1947), “To Catch a Thief” (1955), “An Affair to Remember” (1957), “Indiscreet” (1958), ou “North by Northwest”. Com “Penny Serenade” (1941), e “None but the Lonely Heart” (1944) foi nomeado para o Oscar de Melhor Actor, que nunca conquistou. Mas em 1970, a Academia conferiu-lhe um Oscar honorário pelo conjunto da sua obra. Em 1957, casado com a actriz Betsy Drake, apaixonou-se perdidamente por Sophia Loren, mas esta, comprometida com o produtor italiano Carlo Ponti, não lhe correspondeu. Casa-se depois com a actriz Dyan Cannon, de quem também se divorciou, para voltar a casar, em 1981, com a actriz Barbara Harris. Alfred Hitchcock, Leo McCarey e Howard Hawks, foram realizadores que sempre o preferiram e conta-se que o escritor inglês Ian Fleming se baseou na sua figura, elegância e maneiras para criar a personagem de James Bond, 007. Chegou a receber um convite para encarnar a figura, o que recusou, vindo o mesmo a ser desempenhado por Sean Connery. Em 1966, depois do seu trabalho em “Walk, Don't Run”, terminou a sua carreira, pois se considerava fora dos estereótipos do galã, e nunca aceitaria trabalhar como actor secundário. No inquérito promovido pelo American Film Institute para encontrar as Grandes Lendas do Cinema, figura em 2º lugar, e foi votado o 6º maior actor da História do Cinema pela revista Entertainment Weekly. Na lista das 100 Maiores Histórias de Amor do Cinema, publicada pelo American Film Institute, e organizada em 2002, Gary Grant figura por seis vezes: “O Grande Amor da Minha Vida” (1957), em 5º lugar, “Casamento Escandaloso” (1940), “Com a Verdade Me Enganas (1937), em 77º, e “Difamação” (1946), em 87º. Cary Grant quase morreu no palco, pois teve uma hemorragia cerebral fulminante, aos 82 anos, ao sair do Teatro Adler, em Davenport, Iowa, onde ensaiava um espectáculo "An Evening With Cary Grant". Morreu poucas horas depois e o corpo seria levado para Los Angeles onde, conforme a sua vontade, foi cremado sem qualquer cerimónia fúnebre. Antes de morrer, avisou a mulher e os filhos “de que depois de morto, coisas horríveis iriam ser ditas a seu respeito”. 


Filmografia / no cinema (principais filmes): 1932: This Is the Night (Esposa Improvisada), de Frank Tuttle Blonde Venus (A Vénus Loira), de Josef von Sternberg; 1933: Alice in Wonderland (Alice no País das Fadas), de Norman Z. McLeod; 1934: Thirty Day Princess (30 Dias Princesa), de Marion Gering; Born to Be Bad (Nascida para o Mal), de Lowell Sherman; 1935: Sylvia Scarlett (Sylvia Scarlett), de George Cukor; 1936: Big Brown Eyes (Aqueles Olhos Negros), de Raoul Walsh; 1937: Topper (O Par Invisível), de Norman Z. McLeod; The Awful Truth (Com a Verdade Me Enganas), de Leo McCarey; 1938: Bringing Up Baby (Duas Feras), de Howard Hawks; Holiday (A Irmã da Minha Noiva), de George Cukor; 1939: Gunga Din (Gunga Din), de George Stevens; Only Angels Have Wings (Paraíso Infernal), de Howard Hawks; In Name Only (Engano Nupcial), de John Cromwell; 1940: His Girl Friday (O Grande Escândalo), de Howard Hawks; My Favorite Wife (A Minha Mulher Favorita), de Garson Kanin;The Howards of Virginia (Paixão da Liberdade), de Frank Lloyd; The Philadelphia Story (Casamento Escandaloso), de George Cukor; 1941: Penny Serenade (A Canção da Saudade), de George Stevens; Suspicion (Suspeita), de Alfred Hitchcock; 1942: The Talk of the Town (O Assunto do Dia), de George Stevens; Once Upon a Honeymoon (Lua Sem Mel), de Leo McCarey; 1943: Mr. Lucky (O Senhor Felizardo), de H.C. Potter; Destination Tokyo (Rumo a Tóquio), de Delmer Daves; 1944: Once Upon a Time (O Eterno Fantasista), de Alexander Hall; 1944: None But the Lonely Heart (O Vagabundo), de Clifford Odets; Arsenic and Old Lace (O Mundo É um Manicómio), de Frank Capra; 1946: Without Reservations (A Viajante Clandestina), de Mervyn LeRoy; Night and Day (Fantasia Dourada), de Michael Curtiz; Notorious (Difamação), de Alfred Hitchcock; 1947: The Bachelor and the Bobby-Soxer (O Solteirão e a Pequena), de Irving Reis; The Bishop's Wife (O Mensageiro do Céu), de Henry Koster; 1948: Mr. Blandings Builds His Dream House (O Lar dos Meus Sonhos), de Henry C. Potter; 1949: I Was a Male War Bride (Fizeram-me Passar por Mulher), de Howard Hawks; 1950: Crisis, de Richard Brooks; 1951: People Will Talk (Falam as Más-Línguas), de Joseph L. Mankiewicz; 1952: Room for One More (Sempre Cabe Mais Um), de Norman Taurog; Monkey Business (A Culpa Foi do Macaco), de Howard Hawks; 1953: Dream Wife (A Esposa Ideal), de Sidney Sheldon; 1955: To Catch a Thief (Ladrão de Casaca), de Alfred Hitchcock; 1957: An Affair to Remember (O Grande Amor da Minha Vida), de Leo McCarey; The Pride and the Passion (Orgulho e Paixão), de Stanley Kramer; Kiss Them for Me (Quatro Dias de Loucura), de Stanley Donen; 1958: Indiscreet (Indiscreto), de Stanley Donen; Houseboat (Quase nos Teus Braços), de Melville Shavelson; 1959: North by Northwest (Intriga Internacional), de Alfred Hitchcock; Operation Petticoat (Manobra de Saias), de Blake Edwards; 1960: The Grass Is Greener (Ele, Ela e o Marido), de Stanley Donen; 1962: That Touch of Mink (Carícias de Luxo), de Delbert Mann; 1963: Charade (Charada), de Stanley Donen; 1964: Father Goose (Grão-Lobo Chama), de Ralph Nelson; 1966: Walk Don't Run (Devagar, não Corra), de Charles Walters. 

domingo, 14 de maio de 2017

ANATOMIA DE UM CRIME

ANATOMIA DE UM CRIME (1959)


“Anatomia de um Crime” (Anatomy of a Murder), de Otto Preminger, baseia-se num romance de Robert Traver, pseudónimo de John D. Voelker More que, sendo juiz na época em que escreveu a obra, a assinou com um nome suposto para assim não comprometer a sua carreira profissional, tanto mais que tinha sido ele o advogado de defesa do caso verídico sobre o qual se baseava a suposta ficção. Parece que o grosso volume de “Anatomy of a Murder” andou de mão em mão entre secretárias de diversos editores, até que um se aventurou a publicá-lo, ganhando com isso um “best seller” de reputação incomparável. Este não foi o único policial tendo como cenário um tribunal. John Donaldson Voelker, algumas vezes sob o pseudónimo de Robert Traver, foi um fecundo escritor, entre início da década de 50 e a de 80: "Danny and the Boys" (1951), "Small Town D.A." (contos, 1954), "Anatomy of a Murder" (1958), "Trout Madness" (contos, 1960), "Hornstein's Boy" (1962), "Anatomy of a Fisherman" (uma não ficção, 1964), "Laughing Whitefish" (1965), "The Jealous Mistress" (1967), "Trout Magic" (contos, 1974) e, finalmente, "People Versus Kirk" (1981).
Nascido a 29 de Junho de 1903, em Ishpeming, no Michigan, EUA, viria a falecer de ataque cardíaco, aos 87 anos, no dia 18 de Março de 1991, em Marquette, no Michigan, onde foi juiz no Supremo Tribunal Estatal, entre 1956 e 1960.
Como já dissemos, o texto baseava-se num caso verídico, ocorrido numa pequena cidade, Big Bay, no Michigan. Relata-se em poucas palavras: no dia 31 de Julho de 1952, o tenente Coleman Peterson, recentemente regressado da Coreia, matara a tiro Mike Chenoweth, dono de um bar, alegadamente por este ter violado a sua mulher, Charlotte. O advogado de defesa, John D. Voelker, alegou insanidade temporária do militar, o que acabaria por o libertar, dado ainda um psiquiatra testemunhar que se tinha curado e não apresentava ameaça de perigo. Parece que, depois de bem defendido por Voelker, e livre de apertos jurídicos, o tenente Coleman Peterson deixou a cidade sem sequer pagar os honorários devidos ao seu advogado.
Neste aspecto, o filme de Otto Preminger, que contratou John D. Voelker como consultor técnico, foi o mais fiel possível, não só ao romance como ao ambiente onde decorreu e às personagens que viveram o drama. Todo o filme foi rodado no Estado do Michigan, na zona de Ishpeming-Marquette, o que permitiu ao realizador uma liberdade de movimentos invulgar, sem a presença de controleiros da produtora. O hotel local serviu de base de apoio, onde havia camarins, salas para a fotografia, a montagem, a maquilhagem, etc. O tribunal e a prisão serviram de cenários naturais, o gabinete do advogado de defesa tinha sido o do próprio Voelker e muitos dos jurados do filme tinham ocupado as mesmas cadeiras no tribunal no desenrolar do julgamento verídico (excepto os que já tinham falecido, obviamente). Preminger pretendia o máximo de autenticidade e conseguia-o. Tudo isto aparece descrito na obra de Richard Griffith, director do New York Museum of Modern Art Film Library, que escreveu um ensaio intitulado precisamente “Anatomy of a Motion Picture”, onde estuda todos estes aspectos da rodagem desta obra no Michigan.

Mas os direitos de adaptação da obra vieram parar às mãos de Otto Preminger somente depois de um complexo processo. Em Outubro de 1957, Voelker estabeleceu um acordo com o dramaturgo John Van Druten, pelo qual este último se encarregaria de escrever uma versão teatral para ser levada à cena na Broadway. Van Druten reteria 60% dos lucros e Voelker 40%, e ambos poderiam vender os direitos para uma versão cinematográfica. O que fizeram a Ray Stark da Seven Arts Productions, acordando numa verba de 100.000 dólares, mais percentagem nos lucros. Van Druten morre em Dezembro desse ano, a peça nunca chega a subir a cena e os direitos de cinema, depois de muitas peripécias, acabam nas mãos de Otto Preminger, em Maio de 1958, um pouco inflacionados, 150.000 dólares. A transacção meteu tribunal e uma sentença favorável a Preminger, que se empenhara totalmente na realização desta obra que se transformaria rapidamente num dos mais invulgares êxitos dos chamados “filmes de tribunal”
Muitos foram os prémios que o filme alcançou (entre eles oito nomeações para os Oscars), mas basta referir uma lista, organizada pelo American Film Institute (AFI), em 2008, depois de consultados 1.500 depoentes da área do cinema, sobre os 10 melhores filmes de todos os tempos, na categoria de “Courtroom Drama” (dramas de tribunal) para se perceber a importância histórica desta obra. A lista é a seguinte: 1. “To Kill a Mockingbird”; 2. “12 Angry Men”, 3. “Kramer vs. Kramer”; 4. “The Verdict”; 5. “A Few Good Men”; 6. “Witness for the Prosecution”; 7. “Anatomy of a Murder”; 8. “In Cold Blood”; 9. “A Cry in the Dark” e 10. “Judgment at Nuremberg”. Pessoalmente, colocá-lo-ia nos três primeiros lugares, e Michael Asimow, professor de Direito da UCLA, afirma mesmo que este é “provavelmente o melhor filme de sempre realizado sobre tribunais” ("probably the finest pure trial movie ever made"). Na classificação da “Internet Movie Database” figura em 19º lugar, entre 807 filmes passados em tribunais.
Contam as crónicas da época que Otto Preminger pensou em vários actores antes de acertar o elenco definitivo. Lana Turner seria inicialmente “Laura Manion”, Richard Widmark esteve previsto para a figura do tenente, mas o mais surpreendente terá sido a escolha do juiz. Inicialmente, fora previsto Spencer Tracy, e depois Burl Ives, para o papel de “Juiz Weaver.” Por impossibilidade de ambos, Preminger virou-se para Joseph N. Welch, um advogado de Boston que tinha representado o governo dos EUA no Exército, no quente período da caça às bruxas levado a cabo pelo senador McCarthy. Joseph N. Welch enfrentou-o destemidamente, chegando a acusá-lo de “não ter um mínimo de decência”, marcando assim o início da queda do temível senador e do macarthismo. A escolha terá sido igualmente uma homenagem a um homem impoluto, que, aliás, conduz de forma magnífica todas as sessões do julgamento. Outra figura carismática que surge no filme, não só como autor de uma envolvente partitura musical, onde o jazz é uma constante, é Duke Ellington, que aparece na qualidade de Pie-Eye, um pianista de bar, tocando lado a lado com James Stewart.


O filme aborda um caso de violação, onde, apesar de toda a discrição com que o tema é sugerido, acabou por criar alguns engulhos junto do “Production Code Administration”, o tão conhecido Código Hays. Depois de várias negociações, durante as quais algumas palavras foram banidas dos diálogos (esperma, penetração, clímax sexual, por exemplo), o filme foi rodado, mas não viu a sua aprovação final facilitada. Coisa que era comum nas obras de Otto Preminger, que foi um dos maiores sabotadores do Código (juntamente com Billy Wilder). A “The National Catholic Legion of Decency” levantou problemas e houve mesmo um estado, Chicago, onde o filme foi inicialmente proibido de exibir pelo “Police Film Censor”, e mais tarde autorizado, depois de uma querela jurídica, com o juiz federal Julius Miner a aprová-lo, depois de não o ter considerado “obsceno.” Mas todos perceberam que “Anatomia de um Crime” continha linguagem “nunca ouvida num filme americano”.
A intriga resume-se no essencial ao seguinte: numa pequena cidade da chamada “Upper Peninsula” de Michigan, o modesto advogado Paul Biegler (James Stewart), parece quase retirado de julgamentos, entretendo-se com a pesca, o piano e a companhia de um velho colega, Parnell McCarthy (Arthur O'Connell), que gosta imoderadamente de whisky. A secretária de Paul Biegler, Maida Rutledge (Eve Arden), vai tomando conta dos recados, sobretudo divórcios e outras irrelevâncias, quando recebe um telefonema inesperado. Laura Manion (Lee Remick), casada com o tenente Frederick "Manny" Manion (Ben Gazzara), recentemente regressado da Coreia, quer ser recebida. Laura é notícia nacional, todos sabem do caso que protagonizou: ao regressar à roulotte onde vive com Frederick, depois de uma noite passada num bar, é agredida e violada por Barney Quill. O marido, sabedor do ocorrido, agarra numa arma dirige-se ao bar e desfere alguns tiros certeiros em Barney, matando-o. Preso, não nega o assassinato, apenas pretende atenuantes para o acto. Laura quer que Paul Biegler o defenda em tribunal. Com um caso mediático entre mãos, este procura a colaboração de Parnell McCarthy, que tenta libertar-se da bebida para recompor as capacidades, e ambos partem para o processo, reunindo elementos.
A única forma de tentar atenuar a sentença, ou mesmo libertar o réu, é invocar insanidade temporária. Um psiquiatra militar está disposto a testemunhar. Mas pela frente vão ter o promotor de justiça local, D.A. (Brooks West), assistido por uma sumidade vinda da grande cidade, Claude Dancer (George C. Scott). Este é um daqueles chamados “dramas de tribunal”, como já foi referido e, portanto, tudo será dirimido com argumentos de ambas as partes, perante um júri de pessoas locais, escolhidas aleatoriamente, e um juiz particularmente cordato, Weaver (Joseph N. Welch), que procura sobretudo fazer ressaltar a verdade.
Acontece que Laura Manion não é santa de colocar no altar, tudo nela sublinha a sensualidade e mesmo a provocação. E os jogos de bastidores intensificam-se. A defesa tenta tornar Laura uma dona de casa que procura divertir-se sem maldade com a pin box do bar, a acusação ataca-a pelo seu lado leviano. Esgrimem-se testemunhos contraditórios e todo o filme prende o espectador com o suspense desta troca de acusações, de inquirições de testemunhas, de revelações surpresa, de testemunhos inesperados. A estrutura do argumento é sólida e magnificamente conduzida, jogando com a investigação da defesa, esclarecendo factos ou obscurecendo outros, em proveito próprio.
Uma realização clássica, superiormente dirigida pelo austríaco Otto Perminger, faz de “Anatomia de um Crime” uma obra ímpar dentro do género, sendo que a fotografia de Sam Leavitt, num fulgurante preto e branco, é magnifica, bem como a banda sonora, onde sobressai a música de jazz de Duke Ellington. A descrição da pequena cidade é primorosa de rigor e autenticidade. Mas, num filme de tribunal, é perfeitamente compreensível que o elenco tenha de ser de altíssima qualidade para impor personagens e prender os espectadores. James Stewart é admirável na composição do discreto mas eficiente Paul Biegler, Lee Remick consegue inebriar na figura da provocadora Laura Manion, Ben Gazzara é secreto e misterioso como convém, Arthur O'Connell dá uma lição de bonomia e controlada truculência, George C. Scott é o impassível e incisivo promotor de justiça, sem piedade nos interrogatórios e nas armas que utiliza. Os restantes mantêm o nível, o resultado é brilhante.
Como se sabe, os mecanismos da justiça norte-americana são muito diferentes dos da Europa ocidental. Nesse aspecto, o filme é a lição para quem quiser perceber essas nuances e descobrir igualmente algumas das regras de ouro por que se rege uma democracia que acredita que pode abeirar-se o mais possível da verdade. É obvio que a realidade nem sempre é como nos é narrada nos romances e nos filmes, mas é sempre bom ver defender as liberdades e os direitos dos cidadãos, mesmo num caso tão tortuoso como este que nos é apresentado, onde um estado de espírito alterado pela cólera e a sede de vingança pode ser considerado uma atenuante para um crime. Será lícito moral e juridicamente? Também nesse aspecto, “Anatomia de um Crime” continua muito actual, ainda que, 50 anos depois, dificilmente o resultado fosse o mesmo.

ANATOMIA DE UM CRIME
Título original: Anatomy of a Murder
Realização: Otto Preminger (EUA, 1959); Argumento: Wendell Mayes, segundo romance de John D. Voelker; Produção: Otto Preminger; Música: Duke Ellington; Fotografia (p/b): Sam Leavitt; Montagem: Louis R. Loeffler; Design de produção: Boris Leven; Maquilhagem: Del Armstrong, Harry Ray, Myrl Stoltz; Direcção de produção: Henry Weinberger; Assistentes de realização: David Silver, Hal W. Polaire, Ray Taylor Jr.; Departamento de arte: Howard Bristol; Genérico: Saul Bass; Som: Jack Solomon; Efeitos especiais: George Harris; Companhias de produção: Carlyle Productions; Intérpretes: James Stewart (Paul Biegler), Lee Remick (Laura Manion), Ben Gazzara (Lt. Frederick Manion), Arthur O'Connell (Parnell Emmett McCarthy), Eve Arden (Maida Rutledge), Kathryn Grant (Mary Pilant), George C. Scott (Claude Dancer), Duke Ellington, Orson Bean, Russ Brown, Murray Hamilton, Brooks West, Ken Lynch, Howard McNear, Alexander Campbell, Ned Wever, Jimmy Conlin, Lloyd Le Vasseur, James Waters, Joseph N. Welch, etc. Duração: 160 minutos; Distribuição em Portugal: Columbia /Tristar (DVD); Classificação etária: M/12 anos; 

BEN GAZZARA 
(1930-2012)
Ben Gazzara, com o nome de baptismo de Biagio Anthony Gazzara, nasceu em Nova Iorque, a 28 de Agosto de 1930, e viria a falecer em Nova Iorque, a 3 de Fevereiro de 2012, com 81 anos. Filho de imigrantes italianos, Ben nasceu e cresceu em Nova Iorque, tendo frequentado a conhecida Stuyvesant High School, enveredando decididamente pela carreira de actor. Chegou a estudar engenharia eléctrica na City College of New York, mas desistiu, para se matricular no Actor's Studio. Na década de 50, apareceu em vários espectáculos na Broadway, entre os quais “Gata em Telhado de Zinco Quente”, de Tennessee Williams, com encenação de Elia Kazan. Em 1957, estreia-se no cinema, em “The Strange One”. Com uma carreira intensa, no cinema, na televisão e no teatro, Ben Gazzara também dirigiu alguns episódios de séries de TV e um filme de cinema. Muitos foram os seus papeis memoráveis, como “Anatomy of a Murder” (1959), “A Rage to Live” (1965), “Capone” (1975), “Voyage of the Damned” (1976), mas sobretudo os que interpretou sob as ordens do seu amigo John Cassavetes nos anos 70, “Husbands” (1970), “The Killing of a Chinese Bookie” (1976) ou “Opening Night” (1977). Nos anos 80, refiram-se “Saint Jack” e “They All Laughed”, ambos de Peter Bogdanovich. Trabalhou imenso na televisão, começando por “Arrest and Trial” (1963—1964), na rede ABC e culminando em “Run for Your Life” (1965—1968), na NBC. Foi nomeado por três vezes para o Tony de melhor actor de teatro “A Hatful of Rain” (1956), “Hughie & Duet” (1975) e “Quem Tem Medo de Virginia Woolf?” (1977). Em 2003, ganhou o Emmy de Melhor Actor Secundário, no telefilme “Hysterical Blindness”. Três vezes nomeado para o Globo de Ouro de Melhor Actor de televisão, na série “Run for Your Life”. Durante alguns anos viveu em Itália, tendo uma casa na Umbria. Casado com Louise Erickson (1951 – 1957), Janice Rule (1961 - 1982) e Elke Stuckmann (1982 - 2012). Faleceu em consequência de um cancro no pâncreas, em Fevereiro de 2012.

Filmografia / cinema (principais filmes): 1957: The Strange One (Joko de Paris), de Jack Garfein ; 1959: Anatomy of a Murder (Anatomia de um Crime), de Otto Preminger; 1960: Risate di gioia (O Ladrão Apaixonado), de Mario Monicelli; 1961: The Young Doctors (Jovens Médicos), de Phil Karlson; 1962: La Città Prigioniera (A Cidade Prisioneira), de Joseph Anthony; Convicts 4 (Inferno Na Terra), de Millard Kaufman; 1965: A Rage to Live, de Walter Grauman; 1969: If It's Tuesday, This Must Be Belgium (Estes Turistas Americanos), de Mel Stuart; The Bridge at Remagen (A Ponte de Remagem), de John Guillermin; 1970: King: A filmed record... Montgomery to Memphis, de Joseph L. Mankiewicz e Sidney Lumet (documentário); 1970: Husbands (Maridos), de John Cassavetes; 1972: Afyon Oppio, de Ferdinando Baldi; 1973: The Neptune Factor (Uma Odisseia Submarina), de Donald Petrie; 1975: Capone (Al Capone), de Steve Carver;1976: The Killing of a Chinese Bookie (A Morte de Um Apostador Chinês), de John Cassavetes; Voyage of the Damned (A Viagem dos Malditos), de Stuart Rosenberg; 1978: Opening Night (Noite de Estreia), de John Cassavetes; 1979: Bloodline (Laços de Sangue), de Terence Young; Saint Jack (Noites de Singapura), de Peter Bogdanovich;1981: They All Laughed (Romance em Nova Iorque), de Peter Bogdanovich; Storie di ordinaria follia (Contos da Loucura Normal), de Marco Ferreri; 1983: La Ragazza di Trieste (A Rapariga de Trieste), de Pasquale Festa Campanile; 1985: Il Camorrista (O Professor), de Giuseppe Tornatore; 1987: Il Giorno prima, de Giuliano Montaldo; 1990: Beyond the Ocean, de Ben Gazzara; 1991: Per Sempre, de Walter Hugo Khouri; 1996: John Cassavetes: To risk everything to express it all, de Rudolf Mestdagh (documentário); 1997: The Spanish Prisoner (O Prisioneiro Espanhol), de David Mamet; 1998: Buffalo '66 (Buffalo '66), de Vincent Gallo; The Big Lebowski (O Grande Lebowski), de Joel Coen; Happiness (Felicidade), de Todd Solondz; Illuminata, de John Turturro; 1999: Summer of Sam (Verão Escaldante), de Spike Lee; The Thomas Crown Affair (O Caso Thomas Crown), de John McTiernan; 2000: Blue Moonk de John A. Gallagher; 2001: Broadway: The golden age, by the legends who were there, de Rick McKay (documentário); 2002: Schubert, de Jorge Castillo; 2003: Dogville (Dogville), de Lars von Trier ; Dogville confessions, de Sami Saif (documentário) ; 2004: Quiet Flows the Don, de Serge Bondartchouk; 2005: Paris je t'aime - episódio "Quartier latin", de Gérard Depardieu e Frédéric Auburtin ; 2008: Looking for Palladin, de Andrzej Krakowski.



terça-feira, 18 de abril de 2017

O ULTIMO HURRAH


O ÚLTIMO HURRAH (1958)

“The Last Hurrah” é um filme que vive entre inícios e fins que se completam, que marcam arranques e finais definitivos. O velho mayor de uma qualquer cidade de New England, Frank Skeffington, desce as escadas da sua casa, passando pelo quadro da sua falecida mulher e renovando a flor que diariamente ali se encontra. Nas sequências finais, Frank Skeffington volta a casa, subindo dificilmente as escadas, no cimo das quais se encontra o mesmo quadro. Um pouco mais adiante, procurando furtar-me a denunciar elementos essenciais da intriga, um sobrinho repete os gestos do tio. A mulher de Skeffington é um elemento de um passado que já não existe e que o mayor reverencia.
Por outro lado, no início do filme assistimos a uma parada de campanha política de Frank Skeffington, que se recandidata ao cargo de Mayor, Presidente da Câmara, da cidade. No final, o mesmo homem, agora sozinho por vontade própria, percorre as mesmas ruas, enquanto lá ao fundo passa a caravana política de um candidato rival que acaba de o vencer nas eleições. Frank Skeffington é um homem entre dois mundos, dois mundos com defeitos e vícios, mas defeitos e vícios que John Ford acha diferentes. Frank Skeffington é um candidato bonacheirão que manipula com bonomia a simpatia dos votantes, enquanto o novo pretendente ao cargo, Kevin McCluskey, é um idiota chapado, manipulado por outros, servindo-se de novos meios de comunicação social – neste caso a televisão.


Neste aspecto, este “último hurrah” assemelha-se em muito a um “último hurrah” do próprio John Ford, sentindo os tempos a mudar, os valores a bascularem, o cinema a ser substituído pela televisão, os velhos políticos, carregados de defeitos e vícios, é certo, mas mostrando alguma humanidade, sendo derrotados por marionetas de poderes que se mantêm na sombra (aqui bem evidentes, porém, alguns banqueiros, alguma comunicação social, alguma igreja…). Há mesmo um bispo católico que, a determinada altura, confessa não votar nem num nem noutro, mas “preferir um safado a um idiota”. Este é um filme a preto e branco sobre tempos de desilusão, de fim de ciclo. Um filme que só não é de total desilusão porque na derradeira cena Frank Skeffington é confrontado por um sacerdote que lhe pergunta: “Se pudesse teria feito tudo de forma diferente?”, ao que o velho Mayor responde: “Like hell I would!”, este sim o seu verdadeiro “Last Hurrah”, mantendo todas as suas convicções.
O filme parte de um argumento de Frank S. Nugent e Edwin O'Connor, segundo romance de 1956 deste último, precisamente “The Last Hurrah”, que por sua vez ficcionava episódios da vida de um Mayor de Boston, James Michael Curley, que segundo alguns teria “elevado a corrupção municipal a uma forma de arte”. Curley não gostou que o filme fosse realizado e tentou impedi-lo, não por se julgar mal retratado, mas porque pensou que, ao concretizarem este projecto, um outro, biográfico e laudatório da sua obra, acabaria por ser inexequível.  Morreu em 1958, no ano da estreia do filme de John Ford. Afirma-se que terá recebido 25.000 dólares para não colocar o filme na justiça e a cidade de Boston nunca foi nomeada na obra. Há mesmo um momento em que Spercer Tracy profere um discurso evocando os anos em que foi Mayor desta cidade, desta grande cidade”, sem que proferisse uma única vez o nome da cidade.


A realização crepuscular de John Ford é magistral e obviamente perpassa por ela um tom confessional evidente. Este é também um filme de fim de vida de John Ford, apesar de ainda ter rodado mais oito títulos). Spencer Tracy é obviamente uma personagem profundamente fordeana, rodeada de actores que o foram sempre. Enquanto o presidente da câmara anda escoltado pelos seus fieis, John Ford procede de igual modo ao escolher os seus actores. Há momentos do melhor Ford, como as deambulações nocturnas de Frank Skeffington pelo bairro onde nasceu, pela cidade em fim de festa ou onde uma festa que não é a sua se inicia. Toda a sequência da contagem de votos na sua sede de campanha é notável. A organização do funeral de um cidadão de quem ninguém gostava promovido a herói municipal para propaganda política de Skeffington é notável, como absolutamente brilhante é a sequência da subida da escada de sua casa, nas derradeiras imagens do filme.
Todos os intérpretes são magníficos, mas Spencer Tracy, na figura de Frank Skeffington, ficará como uma das mais extraordinárias, apesar de não lhe ter dado a ganhar nenhum Oscar. Alcançaria nesse mesmo ano um Oscar pelo seu desempenho em “O Velho e o Mar”, mas Spencer Tracy sempre afirmou que gostava muito mais de “O Último Hurrah”. Nós também.

O ÚLTIMO HURRAH
Título original: The Last Hurrah
Realização: John Ford (EUA, 1958)
Argumento: Frank S. Nugent e Edwin O'Connor, segundo romance deste último; Produção: John Ford; Música: Mischa Bakaleinikoff, George Duning, Cyril J. Mockridge, Arthur Morton, Paul Sawtell; Fotografia (p/b): Charles Lawton Jr.; Montagem: Jack Murray; Design de produção: Robert Peterson; Direcção artística: Robert Peterson; Decoração: William Kiernan; Guarda-roupa: Jean Louis; Maquilhagem: Helen Hunt; Assistentes de realização: Sam Nelson, Wingate Smith; Departamento de arte: Charles Granucci; Som: John P. Livadary, Harry D. Mills; Companhia de produção: Columbia Pictures Corporation; Intérpretes: Spencer Tracy (Mayor Frank Skeffington), Jeffrey Hunter (Adam Caulfield), Dianne  (Maeve Caulfield), Pat O'Brien (John Gorman), Basil Rathbone (Norman Cass, Sr.), Donald Crisp (Cardeal Martin Burke), James Gleason ('Cuke' Gillen), Edward Brophy ('Ditto' Boland), John Carradine (Amos Force), Willis Bouchey (Roger Sugrue), Basil Ruysdael (Bispo Gardner), Ricardo Cortez (Sam Weinberg), Wa
llace Ford (Charles J. Hennessey), Frank McHugh (Festus Garvey), Carleton Young (Winslow), Frank Albertson, Bob Sweeney, William Leslie, Anna Lee, Ken Curtis, Jane Darwell, O.Z. Whitehead, Arthur Walsh, etc. Duração: 121 minutos; Distribuição em Portugal: Columbia Pictures; Classificação etária: M/ 12 anos; Data de estreia em Portugal: 21 de Julho de 1959.

SPENCER TRACY (1900-1967)

Spencer Bonaventure Tracy nasceu a 5 de Abril de 1900, em Milwaukee, Wisconsin, EUA, e viria a falecer a 10 de Junho de 1967, com 67 anos, em Beverly Hills, Los Angeles, EUA. Filho de pais católicos, Spencer estudou num colégio jesuíta, onde se tornou amigo do futuro actor Pat O'Brien. Em 1917, os dois abandonaram os estudos e alistaram-se na Marinha, para participarem da I Guerra Mundial. Acabaram por ficar no estado da Virgínia. Spercer Tracy foi depois transferido para Wisconsin, onde terminou seus estudos. Começou a actuar no colégio e acabou por seguir a carreira de actor, fez um teste para a “American Academy of Dramatic Arts”, em Nova Iorque, e foi aceite. Em 1922, estreou-se na Broadway, no ano seguinte casou-se com Louise Treadwell, com quem se manteve casado até final da vida, apesar de ter mantido durante muitos anos uma tumultuosa ligação amorosa coma actriz Katherine Hepburn, que conheceu em 1941, durante a rodagem de “Woman of the Year” e que se prolongou até à sua morte, ocorrida precisamente em casa desta actriz. Também chegou a ser notícia o seu envolvimento com Gene Tierney, em 1952.
Em 1930, John Ford vê-o no teatro e convida-o para interpretar “Up the River”, o que o leva a mudar-se com a família para Hollywood. Nos anos seguintes, aparece em 25 filmes, e em 1935 assina um contrato com a MGM, onde permanece durante duas décadas. Em 1937 e 1938, ganha dois Oscars consecutivos como Melhor Actor, em “Captain Courageous” e “Boys Town”. Recebeu ainda mais sete nomeações: 1937, “San Francisco”; 1951, Father of the Bride; 1956, “Bad Day at Black Rock”; 1959, “The Old Man and the Sea”; 1961, “Inherit the Wind”; 1962, “Judgment at Nuremberg” e 1968, “Guess Who's Coming to Dinner”, esta a título póstumo.
Doente com diabetes desde finais da década de 40, o seu caso viu-se agravado pelo alcoolismo. Em 1963, sofreu um ataque cardíaco, que acabou por afastá-lo do cinema. Regressou em 1967 para interpretar “Guess Who's Coming to Dinner”. Dezassete dias depois de terminadas as filmagens, foi encontrado morto por Katharine Hepburn na cozinha de sua casa, vítima de ataque cardíaco. Encontra-se sepultado no “Forest Lawn Memorial Park” (Glendale), Glendale, em Los Angeles.

Filmografia (principais filmes): 1930: Up the River, de John Ford; 1932: She Wanted a Millionaire (À Procura de um Milionário), de John G. Blystone; Sky Devils (Diabos do Céu), de A. Edward Sutherland; Disorderly Conduct, de John W. Considine Jr.; 1932: Me and My Gal, de Raoul Walsh; 20 000 Years in Sing Sing (20 000 Anos em Sing-Sing), de Michael Curtiz; 1933: The Power and the Glory (O Poder e a Glória), de William K. Howard; Man's Castle (A Vida é um Sonho), de Frank Borzage; 1934: Looking for Trouble (Uma Avaria no Telefone), de William A. Wellman; Marie Galante, de Henry King; 1935: Dantes inferno (O Inferno de Dante), de Harry Lachmann; Whipsaw (A Mulher das Pérolas), de Sam Wood; 1936: Riffraff (Glória de Mandar), de J. Walter Ruben; Fury (Fúria), de Fritz Lang; San Francisco (San Francisco), de W.S. Van Dyke; 1937: They Gave Him a Gun (Deram-lhe uma Espingarda), de W.S. Van Dyke; Captains Courageous (Lobos do Mar), de Victor Fleming; Big City (Na Grande Cidade), de Frank Borzage; Mannequin (Manequim), de Frank Borzage; 1938: Test Pilot (Herói de Hoje), de Victor Fleming; 1939: Stanley and Livingstone (O Explorador Perdido), de Henry King; 1940: I Take This Woman (Esta Mulher é Minha), de W.S. Van Dyke; Northwest Passage (A Passagem do Noroeste), de King Vidor; Edison, the Man (A Vida de Tom Edison), de Clarence Brown; Boom Town (Dois Contra o Mundo), de Jack Conway; 1941: Dr. Jekyll and Mr. Hyde (O Médico e o Monstro), de Victor Fleming; 1942: Woman of the Year (A Primeira Dama), de George Stevens; Tortilla Flat (O Milagre de S. Francisco), de Victor Fleming; Keeper of the Flame (A Chama Eterna), de George Stevens; 1943: A Guy Named Joe (Um Certo Rapaz), de Victor Fleming; 1944: The Seventh Cross (A Sétima Cruz), de Fred Zinnemann; Thirty Seconds Over Tokyo (Trinta Segundos Sobre Tóquio), de Mervyn LeRoy; 1947: The Sea of Grass (Terra de Ambições), de Elia Kazan; Cass Timberlane (As Duas Idades do Amor), de George Sidney; 1948: State of the Union (Um Filho do Povo), de Frank Capra; 1949: Edward, My Son (Meu Filho Eduardo), de George Cukor; Adam's Rib (A Costela de Adão), de George Cukor; 1950: Father of the Bride (O Pai da Noiva), de Vincente Minnelli; 1951: Father's Little Dividend (O Pai é Avô), de Vincente Minnelli; The People Against O'Hara (A Um Passo do Fim), de John Sturges; 1952: Pat and Mike (A Mulher Absoluta), de George Cukor; Plymouth Adventure (O Veleiro da Aventura), de Clarence Brown; 1953: The Actress (A Actriz), de George Cukor; 1954: Broken Lance (A Lança Quebrada), de Edward Dmytryk; 1955: Bad Day at Black Rock (A Conspiração do Silêncio), de John Sturges; 1956: The Mountain (A Montanha), de Edward Dmytryk; 1957: Desk Set (A Mulher Que Sabe Tudo), de Walter Lang; 1958: The Old Man and the Sea (O Velho e o Mar), de John Sturges; The Last Hurrah (O Último Hurra), de John Ford; 1960: Inherit the Wind (O Vento será a Tua Herança), de Stanley Kramer; 1961: The Devil at Four O'Clock (O Diabo as Quatro Horas), de Mervyn LeRoy; Judgment at Nuremberg (O Julgamento de Nuremberga), de Stanley Kramer; 1962: How the West Was Won (A Conquista do Oeste), (narrador) de George Marshall, Henry Hathaway, John Ford; 1963: It's a Mad Mad Mad Mad World (O Mundo Maluco), de Stanley Kramer; 1967: Guess Who's Coming to Dinner (Adivinha Quem Vem Jantar), de Stanley Kramer.  

A MULHER QUE VIVEU DUAS VEZES


A MULHER QUE VIVEU DUAS VEZES (1958)


1. “A Mulher que Viveu Duas Vezes”. Consta que Alfred Hitchcock gostaria muito de adaptar ao cinema “Celle qui n'Était Plus”, um romance da dupla francesa, Pierre Boileau e Thomas Narcejac, entretanto adaptado em França, em 1955, por Henri-Georges Clouzot, com o título “Les Diaboliques”. Sabendo do interesse do realizador norte-americano, Boileau e Narcejac resolveram escrever um novo romance, "D'Entre les Morts", que enviaram a Hitch. Assim nasce “Vertigo”, que conta com o trabalho de Alec Coppel e Samuel A. Taylor na escrita do guião, com a colaboração, não referenciada no genérico, do escritor e dramaturgo Maxwell Anderson.
Extremamente original quando foi rodado, na forma como desenvolve a narrativa e nos processos técnicos utilizados (muitas vezes repetidos e copiados posteriormente, o que pode dar a sensação hoje em dia de não ser tão original quanto o foi em 1957), “A Mulher que Viveu Duas Vezes” é uma obra extremamente complexa, jogando com alguns dos temas caros a Hitchock. Um deles é a obsessão da culpa, outro a presença de uma loura capitosa, que oscila entre vítima indefesa e mulher fatal, um terceiro o recurso à psicanálise e aos complexos e pulsões eróticas desencadeados pelas teorias de Freud e continuadores, muito em voga por esses anos no cinema norte-americano. 


John Ferguson (o sempre notável James Stewart) é um polícia reformado, que sente a culpa de estar ligado à morte de um companheiro de equipa que, ao longo de uma perseguição pelos telhados de São Francisco, ao tentar salvá-lo de uma queda, acaba por sucumbir ele próprio no precipício. Ferguson não sente só a culpa desse acidente, como também fica refém de uma acrofobia que o impede de se aproximar de qualquer abismo, sofrendo de terríveis vertigens que lhe tolhem os movimentos e provocam o desmaio e a queda. Vive a tentar recuperar do trauma, na companhia de Midge Wood (a admirável Barbara Bel Geddes), uma designer que se apresenta como a imagem protectora e maternal de uma amiga e serena apaixonada que lhe dá a força necessária em momentos de maior inquietação. Um dia, Ferguson recebe a proposta de um antigo amigo, Gavin Elster (Tom Helmore), para reatar a sua actividade, agora como detective particular. A ideia é perseguir Madeleine Elster (a belíssima Kim Novak), mulher de Gavin, que atravessa um período conturbado, julgando assumir a personalidade de uma antiga antepassada que se matara. Gavin afirma temer pela sorte da mulher e quere-a acompanhada ao longo do dia, antecipando alguma tragédia. Ferguson acaba por aceitar a incumbência e a beleza de Madeleine e o mistério que a cerca acabará por enfeitiçar o ex-polícia. É difícil ir mais além a desenhar os contornos da trama sem lhe retirar suspense, o que, num filme do mestre do mesmo, seria indesculpável. 


Mas pode dizer-se que Ferguson não se liberta da sua acrofobia, e que alguém se aproveita dela para tentar cometer o crime prefeito. Pode ainda falar-se de uma obsessão amorosa que fulgurantemente galopa, e não se andará muito longe da verdade se se analisar, a certa altura do enredo, o comportamento de Ferguson que se aproxima muito de um sintomático pigmaleanismo, procurando recriar a mulher dos seus sonhos. Aliás a revisitação de alguns temas mitológicos clássicos e de alguns sonhos freudianos (há mesmo um pesadelo visual de Ferguson que revela alguma influência surrealista, sob a batuta de mestre Saul Bass) ao longo de toda a obra, que conta ainda com uma curiosa construção cromática, com alguns planos em viragem para um monocromatismo muito interessante de um ponto de vista simbólico, mas sobretudo como efeitos dramáticos conseguidos mercê de mão de mestre pela astúcia formal de Hitch. De um ponto de vista plástico, a obra é de uma elegância e de um beleza sufocantes, uma das mais rigorosas e perfeitas saídas deste genial manipulador de emoções. Há um efeito que começou desde então a ser conhecido como “a vertigem Hitchcock” e através do qual o cineasta consegue o efeito de vertigem conjugando um travelling manual recuando, com um zoom óptico de aproximação. Mas esta é apenas uma das originalidades desta obra-prima que, todavia, na noite da atribuição dos Oscars no ano, apenas se viu distinguida com duas nomeações para Melhor Direcção Artística e Melhor Som, que nem estes haveria de ganhar. Aliás, a recepção do público na época da estreia, foi razoavelmente boa, bem como a da crítica, sem todavia entusiasmar quem quer que seja. Nem a fabulosa partitura musical de Bernard Hermann suscitou na altura entusiasmo devido. 
O título só começou a ser devidamente valorizado a partir da década de 70, quando alguns realizadores (entre os quais Martin Scorsese e Brian De Palma), muito influenciados pela crítica europeia, lhe atribuíram um outro valor. Mas foi definitivamente depois do restauro, em 1996, que a obra saltou para os lugares de topo das listas dos Melhores de Sempre.
“A Mulher Que Viveu Duas Vezes” não é curiosamente o filme preferido de Hitch (chegou a confessar que uma das suas obras preferidas era “Shadow of a Doubt” - A Sombra de Uma Dúvida-, de 1943), mas, igualmente segundo as suas próprias palavras, terá sido “o seu filme mais pessoal”, onde a protagonista pode considerar-se a representação das mulheres da vida de Alfred Hitchcock.


2. “Vertigo” o melhor filme de sempre?... “Sight & Sound” é uma revista inglesa de crítica cinematográfica que apareceu em 1932, passando, a partir de 1934, a ser editada pelo BFI (British Film Institute).  A revista mantem-se ainda hoje como uma das publicações mais prestigiadas em todo o mundo. De edição mensal, dá igual importância a obras de grande público e de circuitos restritos, sendo dirigida por Gavin Lambert entre 1949 e 1955, depois (de 1956 a 1990), por Penelope Houston. Actualmente é da responsabilidade de Nick James. Em 1952, a “Sight & Sound” organizou um primeiro inquérito entre críticos, realizadores, historiadores, académicos e distribuidores de todo o mundo, solicitando a cada um deles a sua lista dos 10 Melhores Filmes de Sempre. Do cômputo geral saiu uma lista que tinha à frente “Ladrões de Bicicletas”, de Vittorio de Sica, e uma maioria de obras do cinema mudo: 1. Bicycle Thieves (25 votos), 2. City Lights (19), 2. The Gold Rush (19), 4. Battleship Potemkin (16), 5. Intolerance (12), 5. Louisiana Story (12), 7. Greed (11), 7. Le Jour se Leve (11), 7. The Passion of Joan of Arc (11), 10. Brief Encounter (10), 10. La Règle du Jeu (10) e 10. Le Million (10). Dez anos depois, a revista repetiu o inquérito, com resultados bastante diferentes. “Citizen Kane”, de Orson Welles, aparecia à frente: 1. Citizen Kane (22 votos), 2. L'Avventura (20), 3. La Règle du Jeu (19), 4. Greed (17), 4. Ugetsu Monogatari (17), 6. Battleship Potemkin (16), 7. Bicycle Thieves (16), 7. Ivan the Terrible (16), 9. La Terra Trema (14) e 10. L'Atalante (13). Em 1972, novo inquérito dava outro resultado, mantendo todavia “Citizen Kane” na dianteira: 1. Citizen Kane (32 votos), 2. La Règle du Jeu (28), 3. Battleship Potemkin (16), 4. 8½ (15), 5. L'Avventura (12), 5. Persona (12), 7. The Passion of Joan of Arc (11), 8. The General (10), 8. The Magnificent Ambersons (10), 10. Ugetsu Monogatari (9) e 10. Wild Strawberries (9).
Nova década passou e, em 1982, a votação sofreu algumas alterações, mas Welles manteve-se na dianteira: 1. Citizen Kane (45 votos), 2. La Règle du Jeu (31), 3. Seven Samurai (15), 3. Singin' in the Rain (15), 5. 8½ (14), 6. Battleship Potemkin (13), 7. L'Avventura (12), 7. The Magnificent Ambersons (12), 7. Vertigo (12), 10. The General (11) e 10. The Searchers (11). Não deixa de ser interessante verificar as alterações. Alguns títulos foram desaparecendo, outros surgindo, alguns subindo ou descendo em virtude do “gosto” da época. Em 1992, a iniciativa manteve-se e o primeiro lugar também: 1. Citizen Kane (43 votos), 2. La Règle du Jeu (32), 3. Tokyo Story (22), 4. Vertigo (18), 5. The Searchers (17), 6. L'Atalante (15), 6. The Passion of Joan of Arc (15), 6. Pather Panchali (15), 6. Battleship Potemkin (15) e 10. 2001: A Space Odyssey (14).
No primeiro inquérito do século XXI (2002), “Vertigo” começa a ameaçar “Citizen Kane” que, todavia, mantém a hegemonia durante 50 anos: 1. Citizen Kane (46 votos), 2. Vertigo (41), 3. La Règle du Jeu (30),4. The Godfather e The Godfather Part II (23), 5. Tokyo Story (22), 6. 2001: A Space Odyssey (21), 7. Battleship Potemkin (19), 7. Sunrise: A Song of Two Humans (19), 9. 8½ (18) e 10. Singin' in the Rain (17).
Em 2012, finalmente, a reviravolta: “Vertigo” em primeiro lugar, “O Mundo a Seus Pés” em segundo. Entretanto o universo de votantes também se alterou consideravelmente em número: 846 críticos, programadores, académicos e distribuidores, notando a ausência de realizadores que agora tinham uma votação à parte. Os resultados: Vertigo (191 votos), 2. Citizen Kane (157), 3. Tokyo Story (107), 4. La Règle du Jeu (100), 5. Sunrise: A Song of Two Humans (93), 6. 2001: A Space Odyssey (90), 7. The Searchers (78), 8. Man with a Movie Camera (68), 9. The Passion of Joan of Arc (65) e 10. 8½ (64).
A “Sight & Sound” desde 92 que mantem um votação isolada para realizadores, com resultados bastante diferentes nalguns aspectos. Em 1992: 1. Citizen Kane, 2. 8½, 3. Raging Bull, 4. La Strada, 5. L'Atalante, 6. The Godfather, 6. Modern Times, 6. Vertigo, 9. The Godfather Part II, 10. The Passion of Joan of Arc, 10. Rashomon e 10. Seven Samurai; Em 2002: 1. Citizen Kane; 2. The Godfather e The Godfather Part II, 3. 8½, 4. Lawrence of Arabia, 5. Dr. Strangelove, 6. Bicycle Thieves, 6. Raging Bull, 6. Vertigo, 9. Rashomon, 9. La Règle du Jeu, 9. Seven Samurai; Finalmente em 2012 os resultados também diferiram da lista mais vasta: 1. Tokyo Story (48 votos), 2. 2001: A Space Odyssey (42), 3. Citizen Kane (42), 4. 8½ (40), 5. Taxi Driver (34), 6. Apocalypse Now (33), 7. The Godfather (31), 07. Vertigo (31), 9. The Mirror (30) e 10. Bicycle Thieves (29).
Até agora esteve a falar-se sobretudo de filmes de ficção (com uma ou outra excepção documental). Em 2014, a “Sight & Sound” realizou um inquérito sobre os Melhores Documentários de Sempre. Por curiosidade, aqui ficam os resultados: 1. Man with a Movie Camera (100 votos), 2. Shoah (68), 3. Sans Soleil (62), 4. Night and Fog (56), 5. The Thin Blue Line (49), 6. Chronicle of a Summer (32), 7. Nanook of the North (31), 8. The Gleaners and I (27), 9. Dont Look Back (25) e 9. Grey Gardens (25).
Voltando a “Vertigo” e ao seu primeiro lugar em 2012, há que referir que a sua foi uma subida gradual, durante os últimos decénios, desde o sétimo lugar em 1998, passando por um quarto (2000), por um segundo (2002) para alcançar o topo da pirâmide em 2012. Esta progressiva subida quer dizer alguma coisa de consistente: o filme foi cada vez mais apreciado, sem dúvida. Mas, por outro lado, estes inquéritos comportam uma percentagem de incerteza muito grande quanto aos resultados. Primeiro que tudo há que avaliar o universo de convidados a votar. Se forem todos escolhidos em função de uma certa tendência estética ou geográfica, os resultados não podem ser consistentes. E sabe-se muito bem como se podem influenciar as conclusões, escolhendo sabiamente as premissas. Depois, as listas não são analisadas em função das preferências no interior de cada votante. Muito pelo contrário: cada filme é um voto e é da soma dos votos que sai o resultado final. Mas, quaisquer que sejam as dúvidas, são interessantes e esclarecedores os desfechos. Se será ou não o Melhor Filme de Sempre (ao cair do ano de 2012), não importa muito. É seguramente um dos Melhores Filmes de Sempre, o que já importa bastante. Para mim, já agora como nota pessoal, nunca o colocaria sequer entre os meus Dez Melhores. O que não invalida que o considere uma obra-prima inquestionável.


A MULHER QUE VIVEU DUAS VEZES
Título original: Vertigo.
Realização: Alfred Hitchcock (EUA, 1958); Argumento: Alec Coppel, Samuel A. Taylor, segundo romance de Pierre Boileau  e Thomas Narcejac ("D'Entre Les Morts"), como colaboração não creditado de Maxwell Anderson; Produção: Herbert Coleman, Alfred Hitchcock; Música: Bernard Herrmann; Fotografia (cor):  Robert Burks; Montagem: George Tomasini; Casting: Bert McKay; Direcção artística: Henry Bumstead, Hal Pereira; Decoração:  Sam Comer, Frank R. McKelvy; Guarda-roupa:  Edith Head; Maquilhagem: Nellie Manley, Wally Westmore;  Direcção de Produção:  Frank Caffey, Andrew J. Durkus, C.O. Erickson, Don Robb;  Assistentes de realização: Daniel McCauley; Departamento de arte: Saul Bass (poster e genérico), Gene Lauritzen, Manlio Sarra (retrato de Carlota); Som: Winston H. Leverett, Harold Lewis;  Efeitos visuais: Farciot Edouart, John P. Fulton, W. Wallace Kelley, Paul K. Lerpae, John Whitney Sr.; Companhias de produção: Paramount Pictures, Alfred J. Hitchcock Productions; Intérpretes: James Stewart (John 'Scottie' Ferguson), Kim Novak (Madeleine Elster / Judy Barton), Barbara Bel Geddes (Midge Wood), Tom Helmore (Gavin Elster), Henry Jones (Coroner), Raymond Bailey  (médico de Scottie), Ellen Corby (gerente do McKittrick Hotel), Konstantin Shayne (Pop Leibel), Lee Patrick, David Ahdar, Isabel Analla, Jack Ano, Margaret Bacon, John Benson, Danny Borzage, Margaret Brayton, Paul Bryar, Steve Conte, Jean Corbett, Bruno Della Santina, Roxann Delman, Molly Dodd, Bess Flowers, Joe Garcio, Joanne Genthon, Don Giovanni, Roland Gotti, Victor Gotti, Fred Graham, Robert Haines, Buck Harrington, Alfred Hitchcock (homem a passear na rua, aos 11 minutos do filme), Jimmie Horan, Art Howard, Catherine Howard, June Jocelyn,  David McElhatton, Miliza Milo, Lyle Moraine, Forbes Murray, Julian Petruzzi, Ezelle Poule,  Kathy Reed, William Remick, Jack Richardson, Jeffrey Sayre, Nina Shipman, Dori Simmons, Ed Stevlingson, Sara Taft, etc. Duração: 129 minutos; Distribuição em Portugal: Midas Filmes; Classificação etária: M/ 12 anos; Data de estreia em Portugal: 13 de Janeiro de 1959.

JAMES STEWART (1908-1997)
James Maitland Stewart nasceu a 20 de Maio de 1908, em Indiana, Pensilvânia, EUA, e faleceu a 2 de Julho de 1997, com 89 anos, em Los Angeles, Califórnia, EUA. Foi casado com a ex-modelo Gloria Hatrick McLean (1949-1994). Foi um actor de teatro, cinema e televisão, tendo protagonizado vários clássicos, sendo considerado um actor incomparável pelo público mundial. Foi nomeado cinco vezes para o Oscar, que ganhou em 1941, pelo seu trabalho em “The Philadelphia Story”. Na televisão conquistou o Globo Ouro de Melhor Actor, nasérie dramática, de 1974, “Hawkins”. Inicialmente, tentou arquitectura, mas acabaria no teatro, nos palcos da Broadway. Foi nos filmes de Frank Capra que começou a chamar a atenção para o seu trabalho no cinema, sobretudo a partir de “Mr. Smith Goes to Washington” (1939). Neste filme, James começou a construir o papel pelo qual mais tarde seria reconhecido, o de idealista convicto. Foi um actor que muitos realizadores gostavam de ter no elenco dos seus filmes. Por isso Hitchcock, Capra, Ford, Anthony Mann e alguns mais não o dispensavam na sua filmografia.  James Stewart morreu na sua casa, em Beverly Hills, de embolia pulmonar. Encontra-se sepultado no Forest Lawn Memorial Park, Glendale, em Los Angeles.


Filmografia / Cinema (principais filmes): 1934: Art Trouble (curta-metragem); 1935: The Murder Man, de T. Whelan; 1935: Rose Marie (Rose Marie), de W.S. Van Dyke ; 1938: The Shopworn Angel (Um Anjo no Inferno), de H. C. Potter; You Can't Take It with You (Não o Levarás Contigo), de Frank Capra; 1939: Mr. Smith Goes to Washington (Peço a Palavra), de Frank Capra; Made For Each Other (A Vida Começa Amanhã), de John Cromwell; Ice Folies of 1939 (O Turbilhão de Gelo), de R. Scheinzel; Destry Rides Again (A Cidade Turbulenta), de George Marshall; 1939: It's a Wonderful World (Afinal, o Mundo é Belo!), de Frank Capra; 1940: No Time for Comedy (A Vida é Uma Comédia), de William Keighley; The Philadelphia Story (Casamento Escandaloso), de George Cukor; The Shop Around the Corner (A Loja da Esquina), de Ernest Lubitsch; The Mortal Storm (Tempestade Mortal ou Tempos de Maldição), de Frank Borzage; 1941: Ziegfeld Girl (Sonho de Estrelas), de R. Z. Leonard; 1942: Come Live with Me (Compra-se Um Marido), de Clarence Brown; 1946: It's a Wonderful Life (Do Céu Caiu uma Estrela), de Frank Capra; Magic Town (A Cidade Mágica), de William A. Wellman; 1948: Rope (A Corda), de Alfred Hitchcock; On Our Merry Way (Tudo Pode Acontecer), de L. Fenton, K. Vidor, G. Stevens e J. Huston; Call Northside 777 (A Verdade Triunfou), de Henry Hathaway; 1949: The Stratton Story (Tenacidade), de Sam Wood; Malaya (Malaia), de Richard Thorpe; 1950: Winchester '73 (Winchester '73), de Anthony Mann; Broken Arrow (A Flecha Quebrada), de Delmer Daves; Harvey (Havey), de Henry Koster; 1951: No Highway in the Sky (Viagem fantástica), de Henry Koster; 1952: The Greatest Show on Earth (O Maior Espectáculo da Terra), de Cecil B. de Mille; Bend of the River ou Where the River Bends (Jornada de Heróis), de Anthony Mann; 1953: Thunder Bay (A Baía das Tormentas), de Anthony Mann; The Naked Spur (Esporas de Aço), de Anthony Mann; 1953: The Glenn Miller Story (A História de Glenn Miller), de Anthony Mann; 1954: Rear Window (Janela Indiscreta), de Alfred Hitchcock; 1955: Strategic Air Command (Asas no Céu), de Anthony Mann; The Far Country (Terra Distante), de Anthony Mann; The Man from Laramie (O Homem que Veio de Longe), de Anthony Mann; 1956: The Man Who Knew Too Much (O Homem que Sabia Demais), de Alfred Hitchcock; 1957: The Spirit of St. Louis (A Águia Solitária), de Billy Wilder; Night Passage (Duelo de Gigantes), de James Nielson ; 1958: Vertigo (A Mulher que Viveu Duas Vezes), de Alfred Hitchcock; Bell, Book and Candle (Sortilégio do Amor), de Richard Quine; 1959: Anatomy of a Murder (Anatomia de um Crime), de Otto Preminger; The FBI Story (Profissão Perigosa), de Melvyn Le Roy; The Mountain Road (Estrada da Montanha), de Daniel Mann; Two Rode Together (Terra Bruta), de John Ford; 1962: The Man Who Shoot Liberty Valance (O Homem que Matou Liberty Valance), de John Ford; Mr. Hobbs Takes a Vacation (O Senhor Hobbs Vai de Férias), de Henry Koster; 1963: Take Her, She's Mine (Esta Filha não é Minha), de Henry Koster; How the West Was Won (A Conquista do Oeste), de J. Ford, G. Marshall, H. Hathaway; 1964: Cheyenne Autumn (O Grande Combate), de John Ford; 1965: The Flight of the Phoenix (O Vôo da Fénix), de Robert Aldrich; 1966: The Rare Breed (Rancho Bravo), de A. V. McLaglen; Shenandoah (O Vale da Honra), de A. V. McLaglen; 1968: Bandolero! (Bandolero!), de A. V. McLaglen; Firecreek (A Hora da Fúria), de Vicent McEverty; 1970: The Cheyenne Social Club (Um Clube só para Cavalheiros), de Gene Kelly; 1971: Fools' Parade (Três Homens em Fuga), de A. V. McLaglen; 1976: The Shootist (O Atirador), de Don Siegel1977: Airport '77 (Aeroporto 1977), de Jerry Jameson; 1974: That’s Entertainment (Isto é Espectáculo), de J. Haley Jr. (comentário); 1978: The Big Sleep (O Sono Derradeiro), de Michael Winner; 1980: Afrika Monogatari, de Susumu Hani, Simon Trevor; 1991: An American Tail: Fievel Goes West (Um Conto Americano 2 - Fievel no Faroeste) (só voz).